Geração Y - Educação deve transformar informações em conhecimento

Gilberto Dimenstein - Jornalista

As crianças e adolescentes do século XXI caracterizam-se pelo amplo acesso às informações e pela facilidade em lidar com tecnologias de comunicação virtual. Rápidos para acessar novos conteúdos, eles enfrentam dificuldades para selecioná-los e aprofundarem-se nas diversas áreas de conhecimento. Pesquisas na área de neurociência indicam que, enquanto estudantes de décadas atrás conseguiam concentrar-se por 45 minutos na sala de aula, as novas gerações mantêm a concentração por apenas oito minutos e meio. Diante dessa nova realidade, as propostas para a educação da chamada ''geração Y'' passam a considerar que a escola não é mais o foco de disseminação de conteúdos, mas o lugar para ensinar a associar diferentes informações, aprofundar-se nos temas e transformá-las em conhecimento. Jornalista especializado em educacação, Gilberto Dimenstein revelou, em palestra realizada recentemente no Primeiro Encontro GRSA de Gestores de Instituições de Ensino - Alimentação nas Escolas: Presente e Futuro, em São Paulo, o resultado de pesquisas apontando que 70% do desempenho escolar decorre de habilidades individuais e das referências familiares. ''A educação efetiva tem que fugir da ideia de que só se aprende na escola. Essa instituição tem que ensinar a associar conteúdos e encantar o aluno para o processo de aprendizagem.'' O que caracteriza a ''geração Y''? São jovens que têm um novo ritmo. Eles ''zapeiam'' com o controle remoto da televisão enquanto mantém ipod, computador e messenger ligados, o que causa grande aceleração. São ótimos para pegar informações, mas não conseguem se aprofundar. Como essa geração deve ser trabalhada na escola? A principal demanda da ''geração Y'' é selecionar informações. O foco da escola deve ser explicar o que significam todas as informações a que os estudantes têm acesso. Acredito em novas tecnologias, mas o maior elemento interativo é o professor, que tem a atribuição de transformar informações em conhecimento de fato. Ele deve resolver as curiosidades dos alunos e provocar novas curiosidades. Se não for assim, não vai encantar as crianças e adolescentes pelo processo de aprendizagem. Como deve ser a formação do professor que vai trabalhar com essa geração digital? O ideal é trabalhar menos com teorias sobre educação e mais com ''cases'' de sucesso, como acontece nos cursos de MBA na área de administração. Através dese formato, é possível disseminar - com exemplos práticos - ideias para aulas interessantes. Outra necessidade é a valorização do professor. Nas escolas públicas, o que mais encontramos são profesores desmotivados, com baixos salários. Sem educação pública de qualidade, não há democracia. A ''geração Y'' se comunica basicamente teclando por programas de computador. Você acha que que esse hábito sacrifica a boa redação? Ao contrário, a geração atual recuperou a escrita. Nunca se escreveu tanto na história da humanidade como agora. A comunicação virtual é um gancho para trabalhar a escrita e incentivar os jovens a se aprofundarem na redação e na leitura, o que é o grande desafio. A aula de português não pode começar com a norma culta, primeiro tem que ensinar a gostar de ler. Quem gosta de ler não tem dificuldade para escrever. Você acha que a ''geração Y'' é autodidata? Não acredito em autodidatismo, fora um ou outro caso excepcional. Quem tem um dom precisa do mestre para desenvolvê-lo. As informações da internet não criam pessoas sábias, mas confusas. O papel do educador é levar os estudantes para além do senso comum. As classes C e D estão afastadas da realidade da ''geração Y''? Não. Quem não tem banda larga em casa usa a lan house. E, na internet, todos são a mesma coisa, não há diferenciação de classes. A coisa mais revolucionária que aconteceu no Brasil nos últimos tempos é o crescimento da classe C, porque a prioridade da mulher dessa classe é a educação. Muitas famílias, inclusive, já conseguem manter os filhos na escola privada às custas de economia no orçamento doméstico.

Veículo: Folha de Londrina

Data: 20/10/2010